A Escolha

Há aqui qualquer coisa que não é uma escolha simples. A imagem encena uma decisão, mas o que está de facto em jogo não são duas cápsulas — é a relação com o próprio acto de escolher.
A figura está sentada, centrada, quase imóvel. Não há pressa. Isto não é sobre reacção, é sobre consciência. O corpo inclina-se ligeiramente para a frente, como quem entra num espaço interior e não num dilema exterior. As mãos abertas mostram duas possibilidades, mas não impõem nenhuma. Ou assim parece.
Porque há algo que o texto fácil desta imagem não diz: quem oferece as cápsulas não é neutro. A pose é frontalmente simétrica, hierática — quase uma iconografia sacra. A figura preside tanto quanto apela. Há uma assimetria de poder silenciosa que a aparente calma não dissolve, apenas dissimula. Perguntar "qual escolhes?" pressupõe que a escolha é tua. Mas as opções foram definidas por outro.
E no entanto — e aqui Sartre entra sem pedir licença — não escolher é também uma escolha. A consciência humana não tem refúgio. Não há posição neutra, não há abstenção verdadeira. Estamos, nas suas palavras, condenados a ser livres: lançados num mundo sem essência prévia, obrigados a definirmo-nos pelo que fazemos, pelo que recusamos, pelo que deixamos cair da mão. A cápsula que não se toma é tão reveladora quanto a que se engole.
A cadeira não é acidental. Barroca, de couro escuro, entalhada — remete para uma autoridade que antecede o cenário digital. Como se o poder que estrutura a ilusão não fosse novo, apenas revestido de outra linguagem. O código verde em cascata no fundo faz o mesmo: sugere um sistema, uma arquitectura invisível que precede qualquer decisão individual. Mas o mais interessante não é esse fundo — é o contraste entre esse campo estruturado e a presença humana ali sentada. Como se dissesse: o sistema existe, mas a escolha não nasce dele.
As duas cores, vermelho e azul, são quase arquétipos contemporâneos. Já não precisam de explicação literal. Funcionam como símbolos condensados: verdade vs conforto, ruptura vs continuidade, confronto vs anestesia. Mas esta leitura é ainda superficial. O que a imagem espelha, no seu nível mais profundo, é o símbolo como espelho — não como resposta. Não interessa tanto qual das cápsulas se escolhe. Interessa o estado de consciência a partir do qual a escolha emerge.
Porque o que está ali representado não é um dilema entre duas realidades. É o momento anterior a qualquer escolha. O instante em que a consciência ainda não colapsou numa narrativa. Sartre chamaria a isto o momento da angústia — não no sentido vulgar do medo, mas no sentido preciso de reconhecer que nada nos absolve da responsabilidade de escolher. Nem a figura à nossa frente, nem o sistema que a enquadra, nem a beleza da encenação. A angústia é o vertiginoso reconhecimento de que somos a única origem possível do acto.
E depois há os óculos. Espelhados. Não vemos os olhos — ou melhor, vemos reflexos. O acesso é sempre indirecto, simbólico, mediado. A figura vê-nos, mas nós não a vemos verdadeiramente. Isso não é um detalhe decorativo. É a estrutura de toda a cena: a assimetria do olhar replica a assimetria da oferta. Quem tem os óculos espelhados e as cápsulas nas mãos sabe mais do que mostra. Mas mesmo esse saber não nos substitui. É precisamente isso que Sartre não perdoa à má-fé — a tentação de delegar a escolha noutra consciência, de fingir que fomos determinados, que não havia alternativa, que a mão que segurava as cápsulas decidiu por nós.
O que esta imagem coloca, então, não é apenas a pergunta clássica — qual escolhes? — mas uma anterior e mais difícil: de onde escolhes? E ainda mais funda: escolhes realmente, se foi outro a definir o que existe para escolher?
Sartre responderia que sim — e que isso é precisamente o peso que não tem desconto. Mesmo dentro de um sistema que define as opções, mesmo diante de uma figura que preside à cena, a consciência não pode externalizar a sua própria origem. Pode fingir que sim. Pode construir narrativas de determinismo, de destino, de inevitabilidade. Mas sabe. E esse saber é inescapável.
Não há aqui determinismo, nem moralização. Há uma interpelação — silenciosa, mas firme. E uma armadilha igualmente silenciosa: a de confundir a consciência da escolha com a sua liberdade.
Escolher não é tomar partido. É tornar-se consciente do lugar de onde se escolhe. E reconhecer que esse lugar foi, em parte, construído por outro — mas que a responsabilidade de habitá-lo, ou de o recusar, não pode ser transferida para nenhuma mão aberta à nossa frente.